terça-feira, 1 de julho de 2008

A causa do encabulamento ou materialização do corpo em palavras com instrumento não quantitativo

Estava aqui pensando o quanto nossos sentidos ou intuição – ou nosso corpo funcionando de alguma forma que nos faz perceber assim – podem nos oferecer os chamados inshights e o quanto estes são confiáveis, digo, têm “confiabilidade”... Confiabilidade seria uma qualidade de uma metodologia que avalia se medidas individuais em diferentes ocasiões ou por diferentes observadores ou por testes similares produzem o resultado igual ou semelhante; e a confiabilidade, - entendida então como reprodutibilidade – junto com a validade e sensibilidade às alterações compõem as propriedades de medida de um instrumento, que devem ser testadas, para se obter maior credibilidade deste instrumento. Lembrei assim, num ato repentino da minha memória, que traz aos meus pensamentos não apenas uma imagem, mas todo um conjunto de sensações e sentimentos encadeados, de uma certa época e vivência, do quanto os textos de literatura, grafados no caderno do colégio, traziam-me angústia... Pequenos trechos retirados, recortados, fragmentados de obras maiores, livros que eu jamais leria em um dia – especificamente eu – ali, no meio de um planejamento de aula de literatura, como frases soltas e entre aspas. Sempre que eu tentava interpretar um trecho daqueles, eu tinha a impressão de que a minha idéia ou entendimento sobre o que eu acabara de ler era completamente diferente do que a professora de literatura – que por sinal era a mesma das normas gramaticais do Português – falava logo em seguida. Muito diferente. Muito distante. A ponto de haver um abismo entre as interpretações que foi me deixando encabulada a falar sobre a minha interpretação. Bom, eu devia estar errada, pois o que me vinha à cabeça nada tinha a ver com o que era falado. Na verdade, eu sempre tinha mais incertezas ao ler um texto literário do que certezas, afinal, tudo, ou quase tudo dependia de minha imaginação. E hoje, na verdade, percebo este imaginário como um dos grandes “baratos” que um texto literário pode trazer para minha vida.
A validade, também uma outra qualidade da credibilidade de um instrumento quantitativo, “avalia se o instrumento mede o que se propõe a medir. O processo de validação não está muito direcionado a integridade do teste, mas sim às inferências que podem ser feitas sobre indivíduos que produziram aqueles resultados.” Então a validade não têm uma relação direta com “ter valor”, como surge num primeiro momento em meu pensamento... Então seria possível validar um instrumento como o corpo?... De diversas formas o corpo interconectado gera informações pra si mesmo e as traz para o meio em sua interação. Estas informações são validadas de alguma forma?... Nem sempre o corpo se propõe a medir algo, mas as informações desenvolvem-se a partir de interações em determinados contextos e condições...
Assim, não acho nada reproduzível com resultado igual ou semelhante, como quer a credibilidade da ciência, os nossos sentidos, ou nossa intuição, ou mesmo nossos insights, que também compõem nosso corpo e nosso cérebro de alguma forma, em interação com o meio. Então, eles não teriam esta “confiabilidade”...? Olha, sinto muito, mas as informações que chegam ao meu pensamento e, neste sentido, também ao meu corpo, são interessantes, confiáveis no sentido de que acredito nelas, válidas (talvez não validadas, como queira o leitor...) porque têm valor, singulares para mim, e têm sensibilidade às alterações na medida em que são as mesmas informações no corpo, mas sentidas e pensadas de uma nova forma, de uma nova forma trazidas para um novo lugar no corpo. E, apesar destas informações não correspoderem a estas qualidades atribuídas a um instrumento científico crível, eu gosto muito delas, e acho mesmo que devemos sentí-las e explorá-las, investir na valorização desta busca mesmo, ainda que e principalmente, sem atribuir a ciência e aos instrumentos de medida reproduzíveis o lugar de apenas onde pode proliferar um discurso frutífero e factível.
Considero também achar ingenuidade que um instrumento que se propõe a medir, por exemplo, a qualidade de vida de pessoas, pode ter estas características tão puras e firmes, principalmente a confiabilidade e a validade, pois considero que as pessoas podem interpretar questões de diferentes formas, em diferentes contextos sócio-histórico-psiquico-afetivos, já que cada um é singular. E também considero a presença, e de alguma forma a influência ou interação, do pesquisador, que desde o momento em que pensa na “confecção” de uma pesquisa já está de alguma forma interagindo com as informações e elementos acerca dela.
Bom, parece que de alguma maneira a ciência tem que tentar medir estas coisas a fim de mostrar resultados, porque parece que é isto que ela busca. Resultados. O resultado que eu tenho ao sentir ou perceber intuições, insights, pode ser tão singular para mim quanto não mensuráveis, do ponto de vista quantitativo. Mas pode me render um pequeno texto como esse, que já materializou de alguma forma meus pensamentos e impressões numa folha branca de papel ou em palavras virtuais publicado em um blog.
Referências bibliográficas
CICONELLI, RM, SOÁREZ, PC, FILHO, AC. Instrumento de qualidade de vida direcionado para HIV/AIDS: HAT-Qol (HIV/AIDS targeted quality of life). Qualidade de Vida em pacientes HIV, fascículo 2. Elsevier Editora, 2007.